Em 2023, quando eu atuava como CCO da OMIE, recebi de um liderado em desligamento um dos feedbacks mais duros da minha carreira:
“Ivan, você é super inteligente, seus feedbacks fazem muito sentido, porém a forma como você comunica gera medo e ansiedade no time de liderança.”
Aquilo bateu forte.
Eu nunca tinha elevado a voz.
Nunca tinha usado palavras agressivas.
Nunca tinha tratado ninguém de forma pejorativa.
Mas, naquele momento, percebi algo importante:
boa intenção e bom conteúdo não resolvem uma comunicação mal calibrada.
Quando a intenção não basta
Anos antes, na Conpass, uma líder de RH já tinha me dado um feedback parecido:
“Ivan, você consegue ver rapidamente 100 linhas de raciocínio ao mesmo tempo. As pessoas normalmente conseguem ver no máximo 5. Se você trouxer uma argumentação com todas as 100, você vai sobrecarregá-las.”
E era exatamente isso que acontecia.
Eu via potencial nas pessoas.
Queria desenvolvê-las ao máximo.
Não queria dar respostas prontas.
Provocava o time a pensar com perguntas sobre dados e lógica.
Na minha visão, eu estava ajudando.
Na experiência de algumas pessoas, eu estava pressionando demais.
Essa diferença entre intenção e impacto é uma das partes mais difíceis da liderança.
Porque o líder pode acreditar que está desenvolvendo.
Pode acreditar que está elevando a régua.
Pode acreditar que está ajudando o time a pensar melhor.
Mas, se a forma da comunicação gera medo, ansiedade ou bloqueio, o efeito pode ser o oposto do desejado.
A responsabilidade não era do time
Eu poderia ter seguido pelo caminho fácil:
colocar a culpa no time.
Dizer que as pessoas não entendiam minha visão.
Dizer que eu só estava sendo exigente.
Dizer que o problema era falta de maturidade de quem recebia o feedback.
Mas ficou impossível fugir da verdade.
O problema não era apenas como o time recebia.
Era como eu comunicava.
Eu já tinha identificado esse ponto meses antes e chamava isso de “falta de sensibilidade”.
Tinha prometido trabalhar nisso em janeiro.
Era agosto, e eu não tinha avançado.
Fiquei frustrado comigo.
Porque percebi que pessoas estavam sendo penalizadas por uma deficiência minha como líder.
E isso era inaceitável.
Encarar o problema de frente
O primeiro passo foi falar abertamente com o time de liderança da minha equipe.
Eu reconheci que havia uma deficiência em mim.
Disse que entendia o impacto disso.
E que precisava evoluir.
Foi uma das conversas mais vulneráveis que já tive como líder.
Depois, fiz reuniões individuais com cerca de 10 líderes.
Eu não queria feedback genérico.
Queria a realidade.
Perguntei quando minha comunicação falhava.
Perguntei em quais situações eu gerava ansiedade.
As respostas nem sempre foram fáceis de ouvir.
Mas eram necessárias.
Também comecei terapia e tive conversas difíceis com minha esposa, amigos e familiares.
Aos poucos, fui entendendo algo importante.
O líder que só opera como guerreiro tem limite
Durante boa parte da vida, operei como guerreiro.
Como empreendedor.
Como atleta.
Como alguém acostumado a atravessar dor, pressão e incerteza.
Essa postura me trouxe até certo ponto.
Mas o que eu precisava desenvolver agora estava em outro espectro de habilidades.
Escuta.
Sensibilidade.
Presença.
Capacidade de dizer a verdade com firmeza, mas também com empatia.
Porque liderança não é apenas enxergar mais rápido.
É ajudar as pessoas a enxergarem junto.
Não é apenas ter clareza.
É conseguir comunicar clareza sem gerar medo.
O sinal de evolução
Me dediquei de alma e coração para melhorar.
E o melhor sinal de evolução veio quando as pessoas começaram a comentar espontaneamente que eu estava diferente.
Aquilo mudou minha relação com o time.
Mas também mudou minha relação em casa.
Com minha família.
Com amigos.
E comigo mesmo.
Entendi que algumas habilidades não são vencidas em uma corrida de 100 metros.
São construídas em uma ultramaratona.
Liderança exige olhar para si
Liderança não é apenas cobrar evolução dos outros.
É ter coragem de olhar para si mesmo e perguntar:
qual parte de mim ainda impede as pessoas que lidero de crescerem como poderiam?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis para qualquer líder.
Porque ela desloca a responsabilidade.
Não para tirar responsabilidade do time.
Mas para lembrar que a forma como lideramos pode acelerar ou limitar o crescimento das pessoas ao nosso redor.
E, muitas vezes, o maior salto de performance de um time começa quando o líder tem coragem de encarar aquilo que precisa desenvolver em si mesmo.



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